Heróis da Reciclagem: Tião dos Santos

Heróis da Reciclagem: Tião dos Santos

A série Heróis da Reciclagem surgiu para contar as histórias das pessoas que fazem a reciclagem acontecer e como elas enxergam esse setor no Brasil, trazendo mais visibilidade e reconhecimento a esses indispensáveis agentes de mudança. Conheça agora a história do Tião dos Santos, o “Tião da reciclagem”, um dos líderes do movimento dos catadores no país, que compartilhou com a gente um pouco da sua vida, suas percepções e desafios que enfrenta nessa vida de catador.

Tião Santos cresceu no lixão do Jardim Gramacho, no Rio de Janeiro, acompanhando sua mãe que era catadora. Ele transformava o que encontrava no lixo em alimento e diversão, até que o lixo transformou sua vida. Tião passou de catador a presidente da Associação dos Catadores do Aterro Metropolitano do Jardim Gramacho. Em 2007, o artista plástico Vik Muniz começou um trabalho com catadores do Aterro e o resultado foi o documentário “Lixo Extraordinário”, indicado ao Oscar em 2011 e premiado em diversos outros festivais e mostras internacionais.

Como você se envolveu com a reciclagem?

“Eu sou o sétimo filho de uma família de oito pessoas. Minha mãe se tornou catadora de material reciclável em 1985 e, para sustentar a família, foi levando meus irmãos mais velhos com ela. Conforme íamos crescendo, fomos seguindo o mesmo caminho.  Todos os oito são catadores de materiais recicláveis.”

Qual a importância da reciclagem na sua vida?

“Tudo que eu sou hoje, desde a sustentabilidade financeira a alimentícia da minha família, veio através da reciclagem. Meu pai se tornou alcoólatra e minha mãe se tornou pai-mãe da família  e nos levou para o mundo da reciclagem. Isso me fez tudo que sou hoje, Tião dos Santos, conhecido no Brasil e no mundo. A reciclagem na minha vida é mais do que meu sustento, é parte da minha personalidade, tem tudo a ver com a minha vida. Minha família passou por muitos problemas e hoje a gente tem uma vida restaurada. Reciclagem é restauração! A reciclagem é tudo na minha vida, é desde meu sustento à minha definição enquanto cidadão pertencente de uma sociedade. Ela define o meu papel dentro da sociedade.”

O que mudou em você desde que se engajou no assunto?

“Mudou tudo. A minha vida financeira, principalmente, melhorou muito depois de tudo que aconteceu na minha vida através da reciclagem. Mas a maior mudança foi no ser humano. O quanto eu entendi a importância social, ambiental e econômica do meu trabalho. A reciclagem não é simplesmente um assunto, é parte da minha vida. Enquanto profissional, eu me sinto um cara realizado, porém, com muita coisa a ser reciclada e a ser construída dentro de mim. Depois que me engajei na reciclagem, entendi a importância dela não só na vida dos catadores, mas também para o  avanço social e ambiental da nossa sociedade.

Somos uma sociedade em pleno desenvolvimento, temos um consumo muito desenfreado e como objetivo de lutas, colocando famílias durante muitos anos à sua margem. O consumo é muitas vezes inconsciente. Eu entendo o quanto a reciclagem é importante na diminuição do quantitativo gerado hoje na sociedade brasileira. Além das questões sociais e ambientais, tem a questão da geração de trabalho e renda e da proteção do meio ambiente. Tudo isso só veio fazer parte da minha vida depois que eu me engajei e comecei a entender que meu trabalho não era simplesmente um mero sustento de um chepeiro ou de um catador de lixo. Com meu trabalho, existe uma cadeia produtiva funcionando, a cadeia produtiva da reciclagem. Entendi perfeitamente a importância do meu trabalho enquanto agente ambiental social, um operador da coleta seletiva no Brasil, mesmo sabendo que essa coleta seletiva ainda não é uma política pública existente na grande maioria dos municípios do Brasil.”

O que para você é mais importante sobre o tema?

“Hoje, o tema mais importante na discussão da reciclagem é a questão da logística reversa,  do pagamento pelo serviço ambiental prestado pelos catadores, do crédito de logística reversa, e a remuneração dos catadores. Um dos temas importantes também é a erradicação dos lixões, sem que esse seja a exclusão do excluído. Minha mãe foi trabalhar no lixão porque sofria muito com exclusão social e econômica, não levou a gente para o lixão para salvar o planeta. Hoje eu tenho pleno entendimento da importância do meu trabalho, mas a reciclagem entrou na minha vida por uma questão econômica. Eu sei da importância do pagamento pelo serviço ambiental prestado pelos catadores às empresas poluidoras e produtoras de embalagens. Eu sei da importância da inclusão social dos catadores e da emancipação econômica dos catadores após o fechamento dos lixões. Esses são os grandes temas que permeiam a reciclagem e a gestão de resíduos Brasil.”

Na sua opinião, qual é o maior desafio dos agentes de reciclagem?

“Acredito que o maior desafio da reciclagem é garantir a inclusão dos catadores para que a reciclagem possa continuar no Brasil. Engana-se quem acha que a reciclagem pode funcionar no Brasil sem a figura do catador. 90% de todo material reciclável que chega da indústria passa primeiro pela mão dos catadores de material reciclável. E onde estão os catadores de material reciclável? 60% dentro dos lixões, 30% nas ruas rasgando saco e menos de 10% dos catadores são organizados em cooperativas. Menos de 5% dessas cooperativas têm infraestrutura para exercer essa atividade de forma digna, produtiva, eficaz e eficiente. Essa é uma das maiores dificuldades e um dos maiores desafios da categoria e da cadeia produtiva da reciclagem. É fazer com que a reciclagem se torne uma política pública, de inclusão social, de proteção ambiental,  de geração de trabalho e renda.”

Existe alguma dificuldade que você gostaria de melhorar?

“A maior dificuldade que eu gostaria de melhorar é ver a contratação das cooperativas pelos municípios para o serviço de coleta seletiva e as empresas poluidoras e produtoras de embalagem fazendo o pagamento pelo serviço ambiental que é prestado. Hoje, dos 90% de material reciclado que chega das indústrias, os catadores não são remunerados por nada. Dizer que essas empresas cumprem com acordo setorial e com a logística reversa é o maior cinismo e a maior demagogia Nacional.”

No que a Política Nacional de Resíduos Sólidos mudou de efetivo na base da cadeia?

“Poucas coisas mudaram. Os lixões ainda estão a céu aberto e, dos lixões que fecharam, catadores foram jogados na rua, sem nenhum direito. Poucos lixões indenizaram os catadores, como os lixões de Gramacho e de Bangu, no Rio de Janeiro, porque lá nos mobilizamos e lutamos muito. No dia 20 de janeiro, fechou o que era o maior lixão da América Latina, o lixão do Estrutural, a 15 km do Palácio da Presidência, do poder público federal. Praticamente nada foi feito por esses catadores. Fizeram uma bela maquiagem e uma bela de uma enganação para que o poder público saísse bem, e para que a empresa dona do novo aterro saísse com a imagem de empresa cumpridora da Política Nacional de Resíduos Sólidos. Porém, a maior vitória é a Política Nacional de Resíduos Sólidos ser uma ferramenta de luta . É preciso fazer valer, porque quando a lei é de interesse dos ricos, dos empresários,  logo funciona, já que fazem cumprir e valer a lei. É preciso se apropriar do direito. Não basta ter uma política nacional que beneficie os catadores, não basta ter uma política nacional que diz que tem que ter inclusão dos catadores, é preciso se apropriar dos direitos de ter direitos. Não somente por ser catador, mas por ser cidadão brasileiro.”