Ciclo de vida do plástico: da criação à reciclagem

Leia em 7 min

Entenda o ciclo de vida do plástico e como cada ator inserido em suas etapas pode ajudar a otimizá-lo e torná-lo ainda mais sustentável.

É indiscutível que o plástico possui grande importância na modernidade. Ele está presente em nosso dia a dia,  garantindo a integridade dos alimentos em estoques até chegar em nossas mãos ou até mesmo impedindo, através de produtos de limpeza e higiene, que a pandemia atual do COVID-19 se propague ainda mais rápido.

Segundo a empresa de consultoria empresarial McKinsey & Company, mais de 260 milhões de toneladas de plástico são descartadas anualmente no mundo. No Brasil, reciclamos cerca de 5% de todos os resíduos coletados. E o que poderia ser valorizado e transformado em fonte de renda se transforma em mais um problema: poluição.

Mas calma, a história do plástico não é tão simples assim. Ele não é o vilão. Existem muitos atores envolvidos e com co-responsabilidade sobre o descarte incorreto: consumidores, governo, empresas de limpeza, fabricantes de embalagens, marcas que comercializam produtos com embalagens e etc. A lista é extensa mas a co-responsabilidade do impacto do plástico no meio ambiente e sociedade vale para todos. 

Neste artigo, vamos recontar essa história e desmistificar o plástico mostrando todas as suas etapas. Para isso, trouxemos dois convidados especiais: o Cristiano Cardoso, diretor da Cooperativa Recifavela, para lançar luz sobre os aspectos envolvidos na reciclagem desse material e o Elias Soares, técnico em plásticos e mestre em engenharia mecânica com ênfase em materiais e processos (Centro Universitário FEI), para nos contar um pouco mais da ciência por trás do plástico.

Confira abaixo!

Ciclo de vida do plástico

O ciclo de vida do plástico inicia-se na sua concepção e termina no pós-descarte, que é quando o material plástico, em suas diferentes formas, é descartado e pode seguir para a reciclagem, aterro, queima energética ou ainda para lixões.

Cristiano Cardoso aponta que em média 40% das embalagens plásticas que chegam na Cooperativa não seguem para a reciclagem e são destinadas ao aterro sanitário.

Isso acontece porque normalmente elas são feitas de tipos de plástico que ao serem reciclados resultam em um material de baixa qualidade ou que o próprio processo de lavagem gera prejuízo ao reciclador. 

Cardoso diz como exemplo, que não há compradores para embalagens de BOPP, aquelas de salgadinhos e de café. Isso porque, apesar de já existir tecnologia para a reciclagem do BOPP, o custo envolvido ainda é alto. Ou seja, as embalagens de BOPP de produtos comercializados pelas empresas, mesmo que o consumidor separe para coleta seletiva, são destinadas ao aterro.

* Respostas fornecidas pela Cooperativa Recifavela abrangendo unicamente suas operações. Importante frisar que os dados variam entre regiões do país e cooperativas.

Importante situar que o cenário da Cooperativa Recifavela é ainda melhor em relação as taxas de destinação à reciclagem se comparado com o cenário de outras regiões e cooperativas do país. Visto que está em São Paulo, onde há coleta seletiva e esses resultados são mais positivos do que ao compararmos com a realidade que não possuem coleta seletiva.

Etapa 1: A produção do plástico

De acordo com Soares, o plástico é um material que pertence a classe dos polímeros, que pode ser obtido artificialmente por meio de substâncias derivadas do petróleo ou de fontes renováveis e é formado por longas cadeias moleculares. É a maneira como essas longas cadeias, não visíveis ao olho nu, através de processos e reagentes químicos, irão se estruturar que darão mais ou menos: resistência do material as diferentes temperaturas, flexibilidade e rigidez.

Inclusive, os diferentes tipos de plástico possuem uma simbologia específica que pode ser aplicada nos rótulos e que você já deve ter visto nas embalagens por aí. 

Tanto nesse artigo sobre os diferentes tipos de plásticos como no vídeo abaixo, podemos relacionar o número que define a simbologia e o número na embalagem com suas características físicas. Elas darão pistas do melhor tipo de plástico a ser escolhido para cada tipo de produto a ser comercializado e envasado.

Etapa 2: Concepção da embalagem/produto

Para contornar o cenário dos baixos indíces de reciclagem, a primeira etapa é a idealização da embalagem e produto plástico o mais sustentável possível. Para isso podemos buscar responder algumas perguntas:

  • O tipo plástico idealmente pensado é realmente reciclado pela indústria? Conversar com cooperativas e operadores da região onde você comercializa pode auxiliar no entendimento dos tipos de plásticos mais reciclados. Acontece que apesar dos dados apresentados acima em relação à operação da Recifavela, é importante checar localmente visto que a reciclagem dos materiais varia de acordo com a região.
  • O design da embalagem irá favorecer ou prejudicar a reciclagem do material? Alguns objetos muito pequenos, o canudo plástico por exemplo, não são destinados à reciclagem pelas cooperativas por ser necessário acumular muito e gastar uma área da estrutura para um material que será pouco valorizado posteriormente.

É na concepção do tipo de material plástico que irá ser utilizado para confecção de um produto ou envase que temos um dos maiores potenciais de otimização em toda a cadeia.

Então, a otimização nessa etapa visa não apenas um design inteligente mas um tipo de plástico que torne possível que a embalagem descartada possa ter grande valor na reciclagem. E para isso é necessário que ambas as pontas do ciclo de vida do plástico, empresas e cooperativas/operadores de reciclagem, dialoguem para criação de embalagens sustentáveis.

Quando questionado quanto ao potencial de reciclagem de materiais ainda não tão reciclados no Brasil, Elias Soares diz:

“O setor do plástico é muito novo em relação aos outros materiais e por isso ainda é tão dinâmico e inovador. Não há dúvidas que, com o aumento e engajamento das empresas em relação a questões ambientais, novos métodos, processos e aditivos compatibilizantes surgirão. A revista Plástico Industrial, por exemplo, possui uma seção voltada especificamente para reciclagem dos materiais plásticos e é interessante ver como a cada mês surgem novos métodos, pesquisas, processos ou aplicações nessa área.”

Etapa 3 |Consumo e descarte: um dos gargalos da reciclagem

Apesar da grande importância da concepção inteligente do material e design de embalagens e objetos plásticos, o consumo e descarte consciente ambientalmente também tem grande poder no que tange o desenvolvimento da cadeia de reciclagem.

Como falamos, muito do custo envolvido no processo de reciclagem também tem a ver com o custo relacionado à limpeza das embalagens descartadas. Por esse motivo, é imprescindível que a educação ambiental tenha protagonismo para que haja a conscientização dos consumidores quanto a forma correta de descartar os resíduos.

Todos resíduos secos, não orgânicos (como restos de alimentos), devem ser lavados previamente e descartados na coleta seletiva. Nesse ponto, entra um outro ator fundamental do ciclo de vida do plástico: o governo. É necessário que o município disponibilize a coleta seletiva para que o descarte correto seja facilitado.

Caso a sua cidade ainda não possua essa estrutura, é possível destinar os recicláveis diretamente em cooperativas e operadores de reciclagem.

Etapa 4 | Pós-descarte: reciclagem, aterro, lixão ou queima energética?

Ao descartamos bens de consumo e objetos plásticos, eles podem ter diferentes futuros: podem ir para a reciclagem, se o descarte for feito da maneira correta; para aterros sanitários se o tipo de plástico e tamanho não viabilizar a reciclagem; para lixões se o município não contar com uma estrutura sanitária adequada à cidade; ou ainda para queima energética, quando, apesar daquele tipo de plástico não ser reciclado, ele pode ser aproveitado para obtenção de energia.

Reciclagem

Elias Soares nos conta que nem todos os plásticos são recicláveis mas todos podem ser reaproveitados de alguma forma após sua vida útil:

“Existem três tipos de reciclagem para plásticos: mecânica, energética e química. A reciclagem mecânica de plásticos é a técnica mais empregada. Ela se baseia em transformar algum resíduo em matéria-prima útil para fabricação de um outro produto por meio de fases como separação, moagem, lavagem, secagem, compactação, extrusão, granulação e fornecimento.

Cada material tem uma estrutura molecular própria e consequentemente apresenta um comportamento específico durante seu reprocessamento, o que pode exigir uma temperatura, tempo de residência, maquinário e métodos diferentes. Então sim, há diferença (em maior ou menor grau), o processo de reciclagem pode variar de acordo com o plástico. 

Por exemplo, plásticos hidrofóbicos (que não absorvem umidade) podem ser processados sem tratamento prévio. Porém, plásticos higroscópicos (que absorvem umidade) necessitam de uma secagem controlada antes de serem processados. Caso contrário, pode ocorrer sua hidrólise, que é a degradação do material na presença de água em altas temperaturas. O poli(cloreto de vinila) (PVC), por sua vez, pode gerar gases corrosivos para o equipamento e um maquinário específico para esse material é uma boa opção. Por esses e outros motivos que conhecer a parte química dos materiais é tão relevante para a reciclagem.

Quando se trata de reciclagem mecânica, alguns plásticos não são recicláveis.

Resumidamente existem dois principais tipos de plásticos: os termoplásticos e os termofixos. Como o próprio nome sugere, “termo” se refere a calor e “plástico” significa capacidade de moldagem. 

Os termoplásticos são materiais que contém ligações químicas primárias somente ao longo de suas cadeias principais (veja figura). Quando expostas as condições certas de calor e pressão essas cadeias, que estão próximas umas as outras, adquirem movimento e podem ‘fluir’ com facilidade, ou seja, adquirem novamente a sua capacidade de moldagem repetidas vezes.

Já os termofixos são materiais que contém esse tipo de ligação entre as cadeias principais formando uma espécie de ‘rede tridimensional’. Geralmente essas ligações cruzadas se formam após sua moldagem e impedem o movimento das cadeias entre si novamente porque demandam muito mais energia. Ou seja, as ligações cruzadas tornam as cadeias fixas e não permitem que o material ‘flua’ sob ação do calor e assim não tem a capacidade de ser moldado novamente.”

Aterro e queima energética

Quando o produto ou embalagem plástica não é concebido pensando na etapa final do seu ciclo de vida, ou ainda, quando não é descartado corretamente, seu destino pode ser o aterro (local ambientalmente controlado para disposição dos resíduos sólidos sem que haja a contaminação do solo e lençóis freáticos) ou a queima para obtenção energética (esta também é realizada com uma estrutura de filtragem para diminuição da emissão de gases tóxicos liberados no processo).

Gestão sustentável do ciclo de vida do plástico

Para que seja possível a transformação dos baixos números de reciclagem no Brasil é necessário que comecemos a olhar para o ciclo de vida do plástico de forma holística levando em consideração o papel de cada um dos atores inseridos. 

Só assim as empresas podem começar a repensar os tipos de plásticos e embalagens utilizados para confecção/envase de seus produtos, o governo pode incentivar mais ações de conscientização ambiental junto às empresas e os consumidores podem realizar o descarte correto. E, desta forma, todos os atores em conjunto permitirão o avanço da reciclagem e consequentemente a menor utilização de recursos naturais para criação de plásticos virgens.

Que tal irmos juntos na construção de um mundo melhor? Descubra como abaixo:

Compartilhe!

1 comment

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *