Sua empresa está adequada à Economia Circular e ao Upcycling?

Entenda como os conceitos de Economia Circular e Upcycling podem estar relacionados ao planejamento sustentável da sua empresa.


Após uma longa e solitária viagem em torno do planeta Terra, a velejadora Ellen MacArthur voltou de sua missão com a certeza do aprendizado: durante seu percurso, Ellen contou com pouquíssimos recursos disponíveis e compreendeu a importância da preservação dos mesmos para a sua sobrevivência naquela jornada. Ao final do trajeto e de muito refletir sobre a experiência vivida, a velejadora então passou a integrar um seleto grupo de ativistas, cientistas e empresários que tinham como principal bandeira desenvolver e aplicar o conceito de Economia Circular.

Em 2010 foi então criada a Fundação Ellen MacArthur com o objetivo de transformar uma economia linear, onde se extrai, transforma e descarta, e que sabemos não ser sustentável a longo prazo, em uma economia que nada desperdiça. A Fundação hoje é considerada um dos grandes desenvolvedores e aplicadores da economia circular no mundo, e conta com parceiros de peso, como Unilever, Google e Nike.

Apesar de parecer recente, o conceito de economia circular surgiu em 1990 no livro “Economics of Natural Resources and the Environmement”, de David Pearce e R. Kerry Turner, dois economistas ingleses que se empenharam em criar caminhos para uma vida sustentável.

“Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”
Antonie Laurent Lavoisier

Como diria o patrono da química moderna, na natureza nada é desperdiçado e precisamos levar essa ação para nossas vidas: otimizar os recursos, diminuir drasticamente a poluição e fazer uma transição econômica com o objetivo de alcançar benefícios ambientais e sociais, de forma harmônica e inovadora.

É necessário portanto observar o modelo econômico atual e buscar alternativas ambientalmente adequadas, visando o menor impacto possível nas rotinas industriais, corporativas e sociais. Sabemos que se não tomarmos nenhuma providência, estamos fadados ao colapso em um futuro não muito distante.

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Para que esta hipótese nunca chegue a ser realidade, é fundamental que passemos a redefinir a noção de crescimento econômico “a todo e qualquer custo”. Graças a abordagens cada vez mais constantes sobre o que significa uma economia circular de fato, vários novos conteúdos e ideias vêm sendo criados, como por exemplo o do Upcycle.

Upcycle: Transformar e Revalorizar

O upcycle ou reutilização criativa, consiste na transformação de um produto que inicialmente seria descartado, em algo novo. Com a internet e a facilidade de interação e troca de experiências, é possível encontrar qualquer tipo de reuso de materiais, e a cada nova descoberta compartilhada, fronteiras vão se abrindo para a transformação de elementos que anteriormente eram simplesmente rejeitados.

Em sintonia com o conceito de upcycle, também podemos encontrar os mais variados métodos de reaproveitamento de resíduos industriais. Trataremos a seguir alguns deles:

Reciclagem de efluentes: retorno à natureza e a geração de adubo para a agricultura

O tratamento de efluentes convencional é uma solução que visa a otimização operacional das empresas geradoras, ao mesmo tempo que tem como principal objetivo atender as principais leis ambientais do país. No entanto, mesmo após a destinação final do efluente tratado, são gerados passivos ambientais como o lodo consequente dos processos de ETEs – Estações de Tratamento de Efluentes – que, em quase todos os casos, são enviados para aterros sanitários. Um detalhe importante para estes casos é que resíduos que não se enquadram na definição de rejeito e que seguem para este tipo de destinação, deixam de ser reaproveitados, desperdiçando chances de transformação em produtos que agregam valor para outros segmentos.

A reciclagem de efluentes, que, mais do que tratá-los adequadamente, aparece como solução inovadora e ambientalmente correta que assegura uma operação sustentável, reciclando e reutilizando os resíduos através da compostagem.

Compostagem em larga escala

Pensando no potencial existente nos resíduos orgânicos, é que surgiu a compostagem em larga escala, onde lodos de ETEs, produtos fora de especificação, alimentos provenientes de restaurantes, supermercados e CEASAS, e outros, são reciclados e transformados em fertilizante orgânico composto.

Além de ser a melhor alternativa para o meio ambiente, a compostagem garante segurança às empresas após o descarte, além de ajudá-las a atingir metas de reciclagem.

Há várias metodologias aplicáveis para compostar resíduos orgânicos. Para entendermos como a ideia de upcycle se sustenta neste assunto, seguem algumas etapas encontradas na modalidade compostagem termofílica:

1 – Análise do resíduo
Antes de receber e armazenar os resíduos orgânicos, são necessárias avaliações para entender qual sua origem, as matérias-primas e insumos contidos. Resíduos não segregados corretamente na fonte, e que por ventura apresentem materiais inorgânicos incorporados, não devem ser aceitos de forma alguma.

2 – Disposição dos resíduos em leiras
Os resíduos recebidos são por fim dispostos ordenadamente em longos e estreitos corredores chamados de leiras. Esse ordenamento é definido pelo próprio corpo técnico que otimiza a atividade microbiana através de máquinas de revolvimento ou por sopradores, que garantem oxigênio para o desenvolvimento dos microorganismos que digerem e transformam o resíduo.

3 – Fase termofílica
Por conta da alta atividade microbiana consequente do revolvimento das leiras, o processo gera altíssimas temperaturas, produzindo o cenário ideal para eliminação de agentes patogênicos. Nesta etapa a umidade do composto chega a no máximo 40%.

4 – Empilhamento
Posteriormente a fase termofílica, o composto é empilhado e estocado. Nesta fase a temperatura do composto atinge mais 65°C. Após 30 dias parado, o composto já está totalmente higienizado.

5 – Peneiramento
Após matéria orgânica estabilizada, o produto segue para peneiramento no intuito de retirar qualquer resíduo sólido, tal como galhos. O fertilizante orgânico por fim está pronto para ser destinado na agricultura e atividades fins como paisagismo.

Legislação Ambiental

Outro ponto importante é entender que nas últimas décadas não somente os estudos ligados ao meio ambiente aumentaram e ganharam profundidade, como também houve forte influência na criação e aplicação de leis ambientais, hoje mais rigorosas e que produzem grande impacto caso sejam descumpridas.

Com a Política Nacional de Resíduos Sólidos – PNRS, todos os processos que envolvem transporte e destinação final de resíduos são acompanhados de perto pelos órgãos ambientais. Essa forte fiscalização precisa estar sempre no foco das indústrias e empresas, já que precisam garantir a destinação mais correta e segura dos resíduos que produzem.

Nos encontramos em um momento propício, seja para fomentar discussões em torno da preservação e manutenção do nosso meio ambiente, seja para compreender que empresas inovadoras são as que olham para si e buscam melhorar seus processos continua e incansavelmente.

Pensar num futuro upcycle é o caminho para conservar e melhorar a vida que hoje possuímos.

Autora: Juliana Mingoti | Tera Ambiental